domingo, 16 de novembro de 2014

A representação do negro na política brasileira

 
À Eva Paulino Bueno, Rosângela e Walter Praxedes

“A sociedade brasileira largou o negro ao seu próprio destino, deitando sobre seus ombros a responsabilidade de reeducar-se e de transformar-se para corresponder aos novos padrões e ideais de homem, criados pelo advento do trabalho livre, do regime republicano e do capitalismo”.
(Florestan Fernandes, 1978: 20)

Resumo
Os negros escravos foram comparados a instrumentos de trabalho e animais: era-lhes negado o status de humanos. Com a abolição, o negro foi relegado ao status de cidadão de segunda classe, excluído dos direitos sociais e de cidadania e desconsiderado por uma concepção de história branca e européia que enfatizava o movimento operário na perspectiva do branco imigrante europeu. Mesmo em condições adversas os negros atuaram politicamente. Para compreender sua política é preciso considerar a política para além das instituições estatais. O artigo analisa as práticas políticas dos negros brasileiros através das suas organizações e a inserção na política institucional enquanto estratégias para a conquista e consolidação da cidadania. Ao mesmo tempo, explora as relações entre racismo e política, em outros termos, o racismo enquanto política de exclusão.
Palavras-chave: História. Política, Negro, Racismo

Abstract
The slave blacks were compared to work instruments and animals: it was them denied the humans' status. With the abolition, the black was relegated to the second-class citizen status, excluded of the rights of social and of citizenship and inconsiderate for a conception of white and European history that emphasized the labor movement in the perspective of the white European immigrant. Even in adverse conditions the blacks acted politically. To understand his politics it is necessary to consider the politics for besides the state institutions. The article analyzes the political practices of the Brazilian blacks through their organizations and the insert in the institutional politics while strategies for the conquest and consolidation of the citizenship. At the same time, it explores the relationships between racism and politics, in other terms, the racism while exclusion politics.
Keywords: History. Politics, Black, Racism

Em geral, a política tem sido considerada como o universo dos homens livres, detentores dos direitos e deveres que os qualificam como cidadãos. Todavia, antes que os homens conquistassem a sua liberdade e a cidadania, houve um longo processo histórico – em muitos aspectos, ainda inacabado. A compreensão dos homens–cidadãos atuais e, mesmo, das limitações impostas à enorme parcela da população, excluída econômica e socialmente, exige o retorno às origens históricas. Do contrário, corre-se o risco de naturalizar diferenças sociais abissais e de desconsiderar a atividade política dos homens e mulheres não-livres e colocados à margem da sociedade e do Estado.
Assim, torna-se necessário, ainda que brevemente, caminhar caminhos antes percorridos e voltarmos às origens de um povo, estigmatizado por sua cor e, dessa forma, caracterizado como negro. Nesse percurso, analisaremos a ação política anti-racial dos escravos, agentes histórico-sociais nulificados pela política oficial. Enfocaremos o Brasil, mais especificamente, o negro brasileiro. Por isso, faremos uma breve exposição da sua história: sua resistência e, após a abolição, sua luta pela conquista da cidadania, nos espaços institucionais e extra-institucionais.
Antes, porém, consideramos importante salientar que o termo negro possui conotação ideológica na medida em que é uma construção histórica-social, vinculada ao ideário racista. O ser negro é uma invenção fundada em critérios raciais pseudo-científicos, ligada à justificação da sua suposta inferioridade e caráter submisso. (Santos, 2002). Raça é um conceito político ideológico construído historicamente. Sem essa consciência dos significados históricos inerentes ao termo negro, corre-se o risco de naturalizá-lo e reduzí-lo a uma tipificação biológica. Por outro lado, diante da necessidade de sedimentar sua identidade, os afro-brasileiros assumem os termos negro negra, valorizando-os positivamente. Guimarães (1999: 211), por exemplo, utiliza o conceito racialista no “sentido de evocar o carisma da raça negra e de visar a formação de uma identidade racial negra”.

Os males de origem

No século XVI, a partir da terceira década, o Rei de Portugal convence-se de que é preciso efetivar a ocupação do território brasileiro para garantir seus direitos sobre a colônia, ameaçada pelos franceses, cada vez mais presentes nesses trópicos. Porém, realizar esse objetivo não é nada fácil: quem se interessaria por tal empreitada? “A não ser os traficantes de madeira – e estes mesmos já começavam a abandonar uma empresa cujos proveitos iam em declínio – ninguém se interessava seriamente, até então, pelas novas terras; menos ainda para habitá-las”, escreveu  Prado Jr. (1976: 31)
Para atingir seus objetivos o soberano português não teve outra opção senão a de tornar o mais atrativo possível aos olhos de ambiciosos aventureiros a árdua tarefa de colonizarem a Terra Brasilis, oferecendo-lhes nada menos do que a partilha da soberania: os que aceitaram os desígnios reais, adquiriam soberania sobre as Capitanias Hereditárias (extensos territórios em que foi dividido o Brasil, nossos primeiros latifúndios). Mesmo assim, poucos se candidataram. A qualidade dos pretendentes pode ser inferida pelo simples fato de nenhum deles pertencerem à alta nobreza ou aos grandes mercadores do Reino. Eram, como observou Prado Jr., “indivíduos de pequena expressão social e econômica”. [1]
E assim se iniciava o efetivo projeto de colonizar o Brasil. Sem braços dispostos a enfrentar os desafios de povoar produtivamente a terra e desenvolver a colônia, recorreu-se à escravidão: primeiro, do habitante nativo; depois, dos corpos africanos arrancados violentamente à mãe negra.[2]
O modelo de colonização no Brasil se fundamenta na grande propriedade e na monocultura. Como uma grande fornalha dantesca, o sistema colonial consumirá milhares e milhões de vidas humanas. É indescritível a mortandade provocada pelo parasitismo colonialista e a ganância dos traficantes de carne humana: calcula-se que, em média, apenas 50% dos africanos chegavam vivos ao Brasil; e, destes, muitos mutilados e inutilizados para o trabalho. Isto encarecia o preço do trabalhador escravo – o que acarretava, nas regiões mais pobres, a utilização do índio.[3]

Fundamento da sociedade brasileira

“Pela metade do século XIX, a força de trabalho da economia brasileira estava basicamente constituída por uma massa de escravos que talvez não alcançasse dois milhões de indivíduos. Qualquer empreendimento que se pretendesse realizar teria de chocar-se com a inelasticidade da oferta de trabalho. O primeiro censo demográfico, realizado em 1872, indica que nesse ano existiam no Brasil aproximadamente 1,5 milhão de escravos. Tendo em conta que o número de escravos, no começo do século, era de algo mais de um milhão, e que nos primeiros cinqüenta anos do século XIX se importou muito provavelmente mais de meio milhão, deduz-se que a taxa de mortalidade era superior à de natalidade.” (FURTADO, 1964: 141)
Após mais de três séculos, o trabalho do escravo permanecia como o pilar fundamental da sociedade brasileira. Os escravos eram mãos e pés do senhor. Só o escravo trabalhava e produzia. Era ele que fazia tudo.[4]
Ao contrário do mito da incapacidade do negro para o trabalho, desenvolvido no período pós-abolição – justificação ideológica para os projetos imigracionistas e de embranquecimento da nação – esse assimilava facilmente o aprendizado e desempenhava satisfatoriamente o trabalho nos diversos níveis ocupacionais. Durante o período escravista, na cidade ou no campo, ele estava presente em todos os setores sociais, desempenhando as mais diversas funções, proporcionando o ócio dos senhores. Como nota Moura (1988: 68), um breve olhar sobre as pranchas do livro de Debret comprova-o. [5]
Na Grécia antiga, o trabalho manual não era digno do cidadão livre, pois, é uma atividade não criadora, determinada pelas necessidades de sobrevivência. O escravo e o artesão gregos, vinculados ao trabalho manual, não são cidadãos de pleno direito. Como definiu Aristóteles (1995: 96), os cidadãos não são os homens em geral, “mas apenas homens políticos que, sós ou em companhias de outros, são ou podem ser senhores dos interesses comuns da cidade.”
A mentalidade predominante no Brasil do século XIX também se caracteriza pela aversão ao trabalho manual, identificado como inferior e próprio dos escravos. Além do preconceito de cor, o cativo amalgamou o preconceito em relação ao trabalho. Considerando o trabalho enquanto atividade humilhante e vil, o ideal dos senhores brancos era acumular capital suficiente para enviar os filhos às universidades, onde poderiam aprender profissões que lhes libertassem do fardo do trabalho.[6] Quando obrigados a trabalhar, envergonhados, emigravam.
Na ordem escravocrata haviam homens livres que se dedicavam ao trabalho. Eram homens sem posses, vinculados a atividades residuais e ao domínio do fazendeiro; homens sobre os quais também pesava a maldição do trabalho.[7] “Cabia-lhes as tarefas arriscadas, como as derrubadas de florestas, ou aquelas usualmente não confiadas ao escravo (tropeiro, carreiro), ou, ainda, as ocupações ligadas à criação de gado”, afirma Franco (1983: 33)
O africano representou o elemento fundante da sociedade escravocrata. Porém, a ênfase no aspecto puramente econômico induziu a que lhe dedicassem um tratamento restrito ao status de mera mercadoria, valor de uso e de troca: coisa. E era assim que os senhores os viam: como mero capital fixo, comparável aos instrumentos de trabalho. O que o diferenciava de outras mercadorias – como a força de trabalho assalariada – é que ele estava condenado aos castigos e penas, ao bel-prazer do senhorio.
Considerando o ponto de vista institucional, a participação política dos escravos – e, depois, os negros alforriados – foi historicamente neutralizada, ora por mecanismos de cooptação, ora pela repressão. Uma certa historiografia passa ao largo da ação política autônoma, isto é, o africano, escravo ou liberto, enquanto agente de transformação da sua própria história. [8] Estabeleceu-se um discurso que resultou no tratamento do cativo apenas como objeto-coisa. É como se os ele tivesse sido instrumento passivo, testemunho de uma época histórica na qual desempenhou apenas o papel de espectador.
Esse viés historiográfico restringe-se à análise econômica e institucional. A noção de política institucional, isto é, o enfoque sobre o Estado e os mecanismos de participação da sociedade, implica numa restrição da política enquanto atividade consciente coletiva. Mas, para além da política no âmbito do Estado (partidos, parlamento, eleições etc.), há uma pluralidade de ações que ocorrem fora dos espaços institucionais: sua resistência e rebelião contra o poder escravocrata.
Nesse sentido, o escravo readquire o status de agente ativo da sua própria história: excluído dos espaços institucionais, ele recorrerá aos meios e instrumentos de que dispõe para se opor e fragilizar o sistema escravocrata. O protesto escravo – vale afirmar, a sua política – assumirá formas passivas e ativas: do suicídio à resistência coletiva.[9]

A cidadania negada

“A Lei será igual para todos, quer proteja, quer castigue, e recompensará em proporção dos merecimentos de cada um.” (Art. 179, inciso XIII da Constituição Política do Império do Brasil, de 25 de março de 1824)
“Todos são iguaes perante a lei.” (Art. 72 § 2º da Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 24 de fevereiro de 1891)
“Todos são iguaes perante a lei. Não haverá privilégios, nem distincções, por motivos de nascimentos, sexo, raça, profissões próprias ou dos paes, classe social, riqueza, crenças religiosas ou ideas políticas.” (Art. 113, § 6º da Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 16 de julho de 1934)
É ilustrativo que a moeda francesa inscreva em sua face o lema Liberté, Egalité, Fraternité. Essas belas palavras, que expressaram os sonhos de várias gerações e o combustível que alimentou movimentos liberais, humanitários e revolucionários, foram resumidas historicamente em uma:propriedade. Assim, metaforicamente, quanto mais francos franceses um indivíduo possuir (ou outra moeda qualquer – de preferência, dólares), mais gozará da liberdade, mais será cidadão (com direitos, muitas vezes, acima da lei). Quanto à fraternidade, a relegará às obras de caridade e filantrópicas, de caráter religioso ou não.
O critério de posse da propriedade prevaleceu. As ilusões dos nossos liberais radicais e dos cativos quanto ao processo de independência caíram por terra.[10] A Constituinte de 1824 manteve intacto o aparato legal institucional montado desde a época colonial, em especial, a partir da vinda da família real. Para a lei maior do país o escravo não existia, não era considerado pessoa, sujeito de direitos, mas sim propriedade. Contudo, ele não era uma propriedade qualquer, mas coisa animada que poderia, entre outras coisas, se rebelar. Assim, era preciso considerá-lo e o código criminal tratou de enquadrá-lo: a lei tratava-o como humano, responsável por seus atos, quando este figurasse como réu. [11] “Numa palavra: sendo réu, era pessoa; sendo vítima, coisa.” (Silva Jr.: 2000: 361) Fora da lei, ele será tratado à parte por um Código Negro.
Não só o escravo foi excluído, mas também os homens livres pobres, mesmo brancos. Os direitos políticos foram encarados como pertinentes apenas aos que tinham posses. A Constituição de 1824 estabelecia um sistema de eleições indiretas, em dois graus, para a qualificação dos eleitores, de acordo com os bens possuídos, classificados segundo a renda anual.
Por outro lado, tratou-se de dar um verniz liberal: D. Pedro deu-se ao luxo de aceitar certos direitos como a liberdade de imprensa. Em suma, a Constituinte era uma paródia da Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1789: manteve o poder absoluto da monarquia imperial e as vantagens políticas resultantes da independência foram reservadas à elite agrária. O critério de propriedade manterá o status quo: a elite colonial continuará a dominar o Estado. Este, manteve-se acima da sociedade, dominador e cabide de empregos de uma massa serviçal das classes dirigentes.
Na verdade, os nossos liberais apenas adaptaram o ideário liberal europeu às nossas condições sócio-históricas. Também a França revolucionária se curvaria ao critério da propriedade[12] e a história comprovaria que liberalismo econômico e liberalismo político não são necessariamente equivalentes e simultâneos.[13] O nosso liberalismo se mostrou respeitoso ao sacrossanto e inviolável direito de propriedade (incluindo o escravo). Como bem observou Bosi (1992: 195), não há impasse real entre liberalismo e escravismo:
“O par, formalmente dissonante, escravismo-liberalismo, foi, no caso brasileiro pelo menos, apenas um paradoxo verbal. O seu consórcio só se poria como contradição real se se atribuísse ao segundo termo, liberalismo, um conteúdo pleno e concreto, equivalente à ideologia burguesa do trabalho livre que se afirmou ao longo da revolução industrial européia.”
Nossos liberais envergonhados não podiam levar suas concepções políticas às últimas conseqüências, pois isto significaria negar a estrutura social fundada na escravidão. Os ministérios liberais e conservadores alternavam-se no governo sem que isto significasse qualquer mudança substancial. Assim, tanto fazia oposição como situação: o partido que subia ao poder recebia o programa do que caía, e vice-versa.
Eram liberais-conservadores, quando muito, moderados. Como afirma a máxima lampedusiana, aceitavam mudanças desde que nada mudasse.[14] Era um liberalismo escravocrata preocupado em manter os privilégios e o exclusivismo da participação política; um liberalismo que almejava manter a estrutura social vigente amparado num programa político vinculado ao passado. Daí não haver qualquer dificuldade aos conservadores em assumir o programa liberal.
Nosso iluminismo tupiniquim foi tão limitado em seus objetivos que mesmo a ala esquerda, a minoria liberal que os conservadores chamavam de exaltados, estavam muito longe de expressar a radicalidade dos revolucionários franceses no tocante às mudanças sociais. De qualquer forma, essa esquerda tinha uma particularidade que a diferenciava sensivelmente: dirigia-se às massas populares.
Os exaltados estiveram à frente dos vários movimentos populares durante o período regencial. Os escravos e libertos, em maior ou menor grau, participaram desses movimentos. Em alguns casos, como a Revolução Farroupilha, imprimiu-se um conteúdo antiescravista claro e preciso[15]; em outros, a sua participação era admitida como necessária, mas vista com desconfiança, e seus dirigentes tratavam de tranqüilizar a elite agrária; o envolvimento do cativo era às vezes consciente e voluntário; outras vezes ocorria por ordem dos seus proprietários.

O abolicionismo e a República

Em geral, nossos liberais não se importavam com o escravo. O discurso liberal só mudou quando ficou patente que o sistema do trabalho escravo deveria dar lugar ao trabalho livre assalariado. Então, os velhos liberais assumem nova roupagem e decretam que a escravidão, embora legal – pelo estatuto de propriedade – não era legítima.[16] Essa mudança se referia basicamente aos centros urbanos e, particularmente, ao Nordeste. O rico Oeste Paulista permanecerá escravista e sua adesão ao abolicionismo será muito mais no sentido de implementar uma política imigracionista com subsídio do Estado.[17]
O programa liberal admitia a abolição gradual dos escravos, dentro de lei e da ordem. Nabuco defenderá a abolição imediata, mas também recusará qualquer movimento que rompa a institucionalidade. Ele enfatizará a via legal e pacífica: a emancipação deveria ser obra do Estado, desvinculando o social do político e substituindo o escravo pelo Estado, enquanto agente político central. [18] Mesmo assim, o liberalismo do monarquista Joaquim Nabuco adquire um tom dissonante, por expressar uma preocupação com reformas sociais. Ele compreendia que sem as condições que tornassem possíveis o exercício da cidadania, o Brasil não se tornaria uma nação civilizada.[19]
Abolicionistas como Nabuco imaginavam representar o escravo, deter o mandato dos que não tinham vez e voz. Setores mais radicalizados, como aqueles liderados por Luis Gama, incentivavam a fuga dos escravos e estabeleciam uma dinâmica política centrada neles, enquanto sujeitos da própria história.[20] Nos primeiros anos da década de 1880, intensificou-se a participação dos negros no processo abolicionista e ampliou-se as fugas em massa dos escravos. Os senhores temiam perder o controle da situação.
Então, veio a abolição, mas a causa da liberdade permaneceu irresoluta: ao escravo liberto não foram facultadas as condições econômicas e sociais para o usufruto da plena liberdade. O ato oficial da princesa regente apenas institucionalizou a realidade: boa parte dos escravos já tinham conquistado a alforria. A assinatura da abolição, em outras palavras, libertou os senhores proprietários brancos do fardo representado pelo cativo.
Escravos na Colônia e no Império, sustentáculos do desenvolvimento econômico brasileiro durante décadas, os negros se viram largados no interior de uma sociedade fundada em bases racistas. Libertos foram preteridos do mercado formal de trabalho em nome de um projeto elitista de branqueamento do país. Tiveram que disputar com o imigrante europeu até mesmo as mais modestas oportunidades de trabalho livre, como a de engraxate, jornaleiro ou vendedor de frutas e verduras, transportadores de peixe e carregadores de sacas de café, etc. As mulheres garantiram a sobrevivência da família trabalhando, ontem como hoje, como domésticas, faxineiras, babás, doceiras, cozinheiras, lavadeiras e outras atividades similares. As melhores ocupações ficaram com seu concorrente direto: o europeu.
A proclamação da República, em 1889, não mudou a situação política e social do povo negro e pobre: permaneceu excluído da política institucional, como espectador dos acontecimentos. Esse fator é bem ilustrado pelo divertido conto de Artur Azevedo (1960: 37-42) sobre Velho Lima, funcionário público que, enfermo, ausentou-se do trabalho à véspera do 15 de novembro de 1889. Quando restabelecido e de volta ao trabalho, o velho Lima, que não tinha o hábito de ler jornais, estranhou muito o que via e ouvia. Não entendeu porque lhe chamavam de cidadão; compreendeu menos ainda quando tratou um conhecido por comendador e este lhe disse que já não havia mais comendas; outros encontros deram-lhe a impressão de que seus interlocutores estavam loucos: falavam em nova bandeira, em como seria a recepção do Imperador Pedro II em Portugal etc. Finalmente, ao chegar à repartição onde trabalhava ele não se conteve ao observar que a imagem de D. Pedro não mais se encontrava pendurada na parede. Indignado perguntou a um contínuo:
 - Por que tiraram da parede o retrato de sua majestade?
O contínuo, respondeu num tom lentamente desdenhoso:
 - Ora, cidadão, que fazia ali a figura do Pedro Banana?
 - Pedro Banana! repetiu raivoso o velho Lima.
E, sentando-se, pensou com tristeza:
 - Não dou três anos para que isto seja uma república!
Este conto ilustra bem a situação do povo à época da proclamação da República. O velho Lima representa a maioria do povo alijado dos processos políticos.

Negro: subcidadão

O 13 de maio de 1888 marcou um momento crucial de um processo iniciado ainda nos tempos do Brasil colonial: a luta do cativo pela liberdade. O escravo emancipado perceberá que esse processo ainda não findara e que, como assinala Bosi (1992: 271), avançava em duas direções:
“Para fora: o homem negro é expulso de um Brasil moderno, cosmético, europeizado. Para dentro: o mesmo homem negro é tangido para os porões do capitalismo nacional, sórdido, brutesco. O senhor liberta-se do escravo e traz ao seu domínio o assalariado, migrante ou não. Não se decretava oficialmente o exílio do ex-cativo, mas este passaria a vivê-lo como um estigma na cor da sua pele.”
Os caminhos dos negros após a abolição foram diferentes e de acordo com fatores como: particularidades regionais, conjuntura econômica, proporção em relação à população geral, concorrência no mercado de trabalho. Eles se espalharam nas zonas rurais – economias de subsistência, monoculturas – fundindo-se com as amplas camadas da população. Substituído nas fazendas de café pelo imigrante – branco europeu ou japonês – também foi preterido nas cidades enquanto mão-de-obra para a nascente indústria brasileira. Censo da época indica que a maioria absoluta (mais de 80%) dos operários eram imigrantes, sobretudo italianos. A experiência acumulada pelo ex-escravo durante anos não lhe era suficiente para enfrentar a concorrência.[21] Escravo no passado, ele deveria se especializar e aprender a vender a sua força de trabalho.
Por outro lado, é preciso reconhecer que ele carregava o estigma de um passado marcado pelo trabalho escravo, gerador de conflitos entre as exigências do tipo de trabalho assalariado e a forma como os escravos o encaravam. Com analisa Florestan Fernandes, o imigrante embora se rebelasse contra as condições de vida e de trabalho, deformadas pelas sobrevivências do padrão de trabalho servil, aceitavam as condições impostas pelo contrato de trabalho capitalista e via nesse a possibilidade de constituir uma poupança e ascender socialmente.
“O negro e o mulato pretendiam as mesmas condições de vida e tratamento concedidos aos imigrantes, porém obstinavam-se em repudiar certas tarefas ou, o que era mais grave, o modo de dispor de seu tempo e energias. Assim, a escravidão atingia o seu antigo agente de trabalho no próprio âmago de sua capacidade de ajustar-se à ordem social associada ao trabalho livre. Tornava-se difícil ou impossível, para o negro e o mulato, dissociar o contrato de trabalho de transações que envolviam, diretamente, a pessoa humana. Ao contrário do imigrante, que percebia com clareza que somente vendia sua força de trabalho, em dadas circunstâncias de prestação de serviços, eles ajustavam-se à relação contratual como se estivessem em jogo direitos substantivos sobre a própria pessoa. Ou seja, como se se vendessem, em parte ou totalmente, ao aceitar e ao praticar as estipulações do contrato.” (Fernandes, 1978: 29-30)
A resistência dos ex-cativos à racionalidade capitalista – às exigências de disciplina, ao poder despótico fabril e à organização do trabalho – indica que ainda estavam presos ao padrão de trabalho pré-capitalista. Mas também é preciso considerar a dinâmica da rápida expansão da indústria, a qual retirou-lhes as condições para um gradual aprendizado “da mentalidade e dos comportamentos requeridos pelo novo estilo de vida”. (Id.: 30) Eles bem que tentaram, a seu modo, se inserir na sociedade republicana capitalista, mas, “viram-se repudiados, na medida em que pretenderam assumir papéis de homens livre com demasiada latitude ou ingenuidade, num ambiente em que tais pretensões chocavam-se com generalizada falta de tolerância, de simpatia militante e de solidariedade.” (Id.: 31)
Ao ex-escravo restou os trabalhos da rua e da casa, os trabalhos braçais e mal remunerados e que não exigiam qualificação educacional. Jogados à margem da sociedade, permaneceram marginalizados da política e excluídos da organização formal dos operários: os sindicatos criados pelo nascente movimento operário no Brasil, de predominância ideológica anarquista. Ele se somará à imensa população de pobres espalhados pelo país: reconhecidos como brasileiros, serão os cidadãos de segunda classe, subcidadãos, estrangeiros em seu próprio país. A modernidade republicana abandonou-os à própria sorte. “Concretizara-se, de modo funesto, imprevisto e em escala coletiva, o vaticínio de Luís Gama ao traduzir os anseios de liberdade de certo cativo: “falta-lhe a liberdade de ser infeliz onde e como queira...”, notou Fernandes. (Id.: 15)[22]
espetáculo de miséria e pobreza chamou a atenção de um dos nossos maiores escritores: Euclides da Cunha. O autor de Os Sertões, cujasqualidades incluía o racismo fundado em bases pseudo-cientificas[23], se referiu a essa população como “rudes patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa. Porque não no-los separa um mar, separam-nos três séculos.”[24]
No interior desse imenso país, mas também nos grandes centros urbanos, essa população não contava nos cálculos da política oficial – que os viam como classes perigosas. Desconsiderado econômica, social e culturalmente, o negro, a exemplo dos brancos pobres, foi excluído do jogo político das oligarquias que dominavam a república velha.
Durante o período republicano a política continuou sendo uma atividade elitista. O povo é chamado para aplaudir ou é visto como um mal necessário para legitimar uma democracia de fachada. Os personagens de Lima Barreto (1956), em Numa e Ninfa, ilustram bem essa realidade: eles defendem um governo forte que concilie liberdade e ditadura. É paradoxal! Mas esse é o regime ideal dos nossos liberais e republicanos. Suportam o povo para governar em seu nome. Nessa obra, Dona Celeste, esposa de um senador, em seu grã-finismo inato, declara:
 - Os deputados e senadores não deviam estar em dependência tão estreita desse povinho - não acha você, Edgarda?
A Ninfa responde:
 - Creio, mas... Dizem que eles devem ouvir todo o mundo, para bem representar a vontade do povo, por quem são eleitos.
 - O povo! Eleitos! Nós é que sabemos como é isso, minha cara Edgarda; nós sabemos disso...
A política republicana reforçou os esquemas de dominação herdados do período colonial-imperial fundados em torno de relações pessoais de favor, compadrio e o poder do coronel. Os pobres permaneciam dependentes dos favores do grande fazendeiro – desde um remédio, um médico, até a concessão para a exploração de uma pequena roça ou a criação de animais e a proteção contra a polícia e a justiça. Em troca, prestavam serviços gratuitos ao coronel, seu compadre. As eleições constituíam apenas um desdobramento dessas mútuas relações de favores consolidadas no cotidiano dessas populações. Como observou Leal (1952: 20-21):
"são, pois, os fazendeiros e chefes locais que custeiam as despesas de alistamento e da eleição (...) Documentos, transporte, ALOJAMENTO, refeições, dias de trabalho perdido, e até roupa, calçado, chapéu para o dia da eleição, tudo é pago pelos mentores políticos empenhados na sua qualificação e comparecimento (...) É, portanto, perfeitamente compreensível que o eleitor da roça obedeça à orientação de quem tudo lhe paga, e com insistência, para praticar um ato que lhe é completamente indiferente".
Desenvolveu-se um sistema clientelista e as eleições eram decididas pelo maior ou menor poder dos coronéis. Os votos de cabestro e oseleitores fantasmas eram comuns em eleições geralmente fraudulentas (também contribuía o fato do voto ser em aberto). O que decidia mesmo era o poder de fogo de cada coronel. Os vencedores estendiam sua influência, através de um sistema de nomeações e favorecimento, pela política estadual e federal. As urnas terminavam por legitimar o poder do mais forte e por manter as relações de dependência e favor. Nesse esquema, aos pobres, independente da sua cor, cabia apenas o papel de cabos eleitorais ou de comporem o exército privado do coronel: seus jagunços. Era essa elite agrária, a partir da política do café com leite, que dominava o país.
A ação política do negro
O povo negro teve dificuldade de se organizar na nova situação: a I República fomentou um clima desfavorável à sua atividade política. Sem espaço na política institucional e nos sindicatos, ele desenvolveu formas de atuação amparadas numa imprensa própria surgida nas primeiras décadas do século XX: O Menelik (1915), A Rua (1916), O Alfinete (1918), A Liberdade (1919), A Sentinela (1920), O Getulino e o Clarim d’ Alvorada (fundado, também em 1924, por José Correia Leite e Jaime de Aguiar). Nessa época, se falava em organização e conscientização doshomens de cor: só mais tarde que o termo negro passou a ser aceito.
Essas iniciativas confluíram para a articulação de um grande movimento de massas: a Frente Negra Brasileira. O negro começava a construir seu próprio espaço de atuação com o objetivo de influir no jogo político. Essa iniciativa fomentava a tendência de “arregimentar o negro” com fins próprios, tanto no terreno eleitoral quanto, em sentido mais amplo, como grupo social integrado, autônomo e capaz de manejar livremente, em fins próprios, sua parcela de poder político.” (Fernandes, 1965: 21)
Fundada em 16 de setembro de 1931, a Frente Negra Brasileira expressava as inquietações e ansiedades do negro que, nesses anos, manifestava-se com vigor contra o preconceito racial e por sua elevação à cidadania. Essa organização buscava congregar todos os grupos existentes no meio negro e estimulá-los a enfrentarem os tabus e preconceitos, se organizando coletivamente para defender seus interesses específicos.
Frente Negra publicou o jornal A Voz da Raça e sua sede ficava na Rua da liberdade, 196 (São Paulo, Capital). Florestan Fernandes descreve sua organização:
“Por seus estatutos, ela se reconhecia como tendo por fim promover a “união política e social da Gente Negra Nacional, para afirmação dos direitos históricos da mesma, em virtude de sua atividade material e moral no passado e para reivindicação de seus direitos sociais e políticos, atuais, na Comunhão Brasileira”. Era dirigida por um Grande Conselho, “soberano e responsável, constando de 20 membros, estabelecendo-se dentro dele o Chefe e o Secretário, sendo outros cargos necessários preenchidos pelo Presidente”. O Grande Conselho era “ajudado em sua gestão pelo Conselho Auxiliar, formado pelos cabos distritais da Capital”. Este órgão tornou-se o fulcro da formação da milícia frentenegrina, que tinha organização para-militar. Os seus componentes vestiam camisas brancas, estavam sujeitos a rígida disciplina, recebiam treinamento militar e foram chefiados pelo Dr. Raul Joviano do AMARAL, que ocupava o posto de capitão (os demais postos de major, coronel, eram honoríficos, cabendo aos membros do Grande Conselho e ao Presidente da F.N.B.). (Id.: 35-36) [25]
Em seu horizonte estava a justiça social e a sua inserção na sociedade capitalista. Uma das formas pensadas para superar a situação de inferioridade social em que o negro se encontrava era a educação. Tratava-se de prepará-lo para integrar a sociedade de classes, para torná-lo competitivo e levá-lo a superar a miséria e o preconceito.[26]
Com esses objetivos, a Frente Negra se registraria como partido político. O golpe de 1937 a colocou na ilegalidade. Reprimida pelo governo de Getúlio Vargas e envolta num debate interno em torno das simpatias à ideologia nazi-fascista, a organização se desintegraria. Seus militantes ainda tentariam a sua reorganização com a fundação da União Negra Brasileira, sob a presidência do Dr. Raul Joviano do Amaral. Com a democratização do país, a partir de 1945, ocorreriam outras tentativas de rearticular a Frente Negra.
Embora presa à ideologia nacionalista de integração e assimilação, o que a levava a descartar a mobilização pela defesa das formas culturais africanas, a Frente teve um importante papel na ação política dos negros. Organizada como sociedade civil, externamente aos sindicatos e aos partidos (ainda que, posteriormente, postulasse a sua transformação em organização política-partidária), a Frente Negra foi o primeiro movimento de massas no período pós-abolicionista que tentou inserir o negro na política. Como relata Florestan:
“O repúdio ao padrão tradicionalista e assimétrico de dominação racial e as aspirações de integração social rápida, em escala coletiva, convertiam a Frente Negra, inapelavelmente, num movimento reivindicatório de tipo assimilacionista. No fundo, portanto, ela atuou como um mecanismo de reação societária do “meio negro”. Visava consolidar e difundir uma consciência própria e autônoma da situação racial brasileira; desenvolver na “população de cor” tendências que a organizassem como uma “minoria racial integrada”; e desencadear comportamentos que acelerassem a integração do negro à sociedade de classes. Para atingir este fim, ela operava em três níveis distintos: no solapamento da dominação racial tradicionalista, através do combate aberto às manifestações do “preconceito de cor” e da desmoralização dos valores ou das técnicas sociais em que ele se assentava; na reeducação do “negro”, incentivando-o a concorrer com o “branco”, em todas as esferas da vida, e emulando-o, psicologicamente, para enfrentar a “barreira de cor”; na criação de formas de arregimentação que expandissem e fortalecessem a cooperação e a solidariedade no seio da “população de cor”. (Id.: 37)
Essa experiência expôs as dificuldades da consolidação de uma política autônoma dos negros. De um lado, observa-se a incredulidade em relação às suas próprias forças e o deslocamento da sua ação para tentativas de ascensão individual. Pesa-lhe ainda as condições sócio-políticas herdadas do passado escravocrata:
“Desde os pródromos dos movimentos reivindicatórios, todas as tentativas de congregar o “voto negro”, por exemplo, canalizando-o para determinado (ou determinados) representantes sempre falharam irremediavelmente. Houve quem explicasse semelhante desfecho (chocante em alguns casos, pois a Frente Negra Brasileira possuía milhares de adeptos e o candidato escolhido alcançou votação inexpressiva) pelo analfabetismo que excluía o “negro”, em massa, do corpo eleitoral. No entanto, o “eleitor negro” raramente tende a acolher os argumentos favoráveis à concentração do “racial” dos votos, apesar da pertinácia dos que defendem essa orientação.” (Id.: 56-57)
Essa é uma tendência que se mantém ainda hoje. Acessório da política classista, subutopia, a luta anti-racial se dará nos poros da sociedade de classes: uma experiência aqui, outra acolá. O negro reage ao preconceito utilizando-se das brechas inscritas na própria lei liberal-constitucional. Antes de expressar seu caráter social e classista, ele precisa fazer o percurso inverso: tem que se firmar primeiro enquanto raça. Fracassada a tentativa de integração coletiva através da Frente Negra Brasileira, ele buscará a solução individual.
A aceleração do desenvolvimento industrial nos anos 1940-60 parece fornecer as oportunidades que precisa para integrar-se no mercado de trabalho como livre assalariado. O progresso, acredita, poderá redimí-lo. Porém, sua situação social não muda radicalmente. É certo que uns conseguem ascender socialmente, mas o grosso continuará a fazer parte dos setores mais pobres da população, “a concentrar-se em ocupações mal remuneradas e de pouco ou nenhum prestígio e a fornecer ralas elites, mais ou menos isoladas e fechadas, como no passado.” (Id.: 134)
Nesses anos, a política populista alça os trabalhadores à posição de coadjuvantes no cenário da política brasileira. Eles não mais poderiam ser desconsiderados como sujeitos históricos (por isso a necessidade do golpe militar). Nesse contexto, o negro intensifica sua presença na cena política, mas ainda é um rosto na multidão – sua inserção se dá pelo viés classista – através dos sindicatos, dos movimentos grevistas e da sua participação, como cabo eleitoral, nos partidos populistas; a adesão aos partidos contestadores da ordem ocorre enquanto indivíduo diluído no coletivo da classe.
Ele reagirá. Em 1945, Abdias do Nascimento cria o Teatro Experimental do Negro – até então, excluído, como ator e como platéia. Segundo seu relato:
“O Teatro Experimental do Negro nasceu para contestar essa discriminação, formar atores e dramaturgos afro-brasileiros e resgatar uma tradição cultural cujo valor foi sempre negado ou relegado ao ridículo pelos nossos padrões culturais: a herança africana na sua expressão brasileira.” (Nascimento, 2000: 206)
Impulsionado pela atuação do Teatro Experimental do Negro, ocorre, ainda em 1945, a Convenção Nacional do Negro Brasileiro; em maio de 1949, realiza-se a Conferência Nacional do Negro; e, em 1950, o 1º Congresso do Negro Brasileiro.[27]
Ao avaliar essa experiência, Guimarães (1999: 211) reconhece que o Teatro Experimental do Negro
“...ampliará a agenda anti-racista no Brasil, incluindo, de forma incisiva, a luta contra a introjeção do racismo pela população negra, por meio da aceitação do ideal de embranquecimento, dos valores estéticos brancos e da detração da herança cultural africana. A ideologia predominante no movimento ainda será, contudo, nacionalista e integracionista.”
Esses anos marcam o fim do ciclo iniciado com a efervescência política que originou a Frente Negra Brasileira. O protesto negro que floresceu na década de 1930 e irradiou-se pela década seguinte “foi sufocado pela indiferença dos brancos, em geral; pela precariedade da condição humana da gente negra; e pela intolerância do Estado Novo diante do que fosse estruturalmente democrático”. (Fernandes, 1980)

O fim das ilusões e a rearticulação do movimento negro

Como notou Nabuco (2000), as ilusões dos escravos quanto à emancipação resistiram às frustrações da Independência brasileira e às leis de papel que deveriam minorar a sua situação. (O tráfico mesmo proibido, permaneceu ativo sob os olhos e beneplácitos das autoridades; a Lei do Sexagenário, livrava o senhor do fardo de manter o velho escravo; a Lei do Ventre Livre era contornada habilmente pelos senhores de escravos; e, a abolição foi uma obra incompleta). Mesmo assim, eles mantiveram a esperança.
Nos anos 1960-70, a situação do negro na sociedade brasileira não mudara substancialmente. Em seu estudo, elaborado entre 1963 e 1964, Florestan concluía que:
“Não só os mecanismos de dominação racial tradicionais ficaram intactos. Mas a reorganização da sociedade não afetou, de maneira significativa, os padrões pré-estabelecidos de concentração da renda, do prestígio social e do poder. Em conseqüência, a liberdade conquistada pelo “negro” não produziu dividendos econômicos, sociais e culturais. Ao contrário, dadas certas condições especificamente históricas, do desenvolvimento econômico da cidade, ela esbarrou com as pressões diretas e indiretas da substituição populacional.” (Fernandes, 1965: 388-89)
O negro sintetiza a tensão entre a sua situação de raça e a situação de classe.[28] Nos anos ditatoriais a determinação de classe se fortalecerá. Os espaços para a ação política institucional serão praticamente extintos. O regime militar censurou toda e qualquer manifestação de caráter anti-racial e, inclusive, omitiu a rubrica raça no censo de 1970. Os militares oficializaram a ideologia da democracia racial e a transformaram em peça de marketing no exterior. A militância que ousou desafiar o mito da democracia racial foi acusada de “antibrasileiros”, “racistas”, ou imitadores baratos dos ativistas americanos pelos direitos civis.” (Skidmore, 1994: 165) A luta racial adquiriu ares de antipatriotismo. Com efeito, a forma corriqueira de negar a existência do racismo e de todas as suas conseqüências é simplesmente fazer de conta que o problema não existe.
Se não podemos nos surpreender com a atitude historicamente preconceituosa do pensamento dominante, é interessante observar como os partidos e organizações políticas de esquerda, que defendem idéias igualitárias e contra todo tipo de opressão, também terminam por negligenciar o tema racial. Eurocêntrica em sua fundamentação teórica, a esquerda brasileira teve como parâmetro um determinismo economicista que reduz todas as relações sociais às determinações de classe, ou seja, vê o trabalhador e a trabalhadora, negro ou branco, negra ou branca, sob a lente do conflito Capital X Trabalho. Passa-lhe despercebido que o homem e a mulher não são apenas agentes econômicos, mas agentes situados histórica e socialmente.
Uma esquerda enviesada por tal reducionismo tende a passar ao largo de questões como o racismo. Impregnada pela ideologia racista dominante, não compreende o papel e a importância desta ideologia enquanto elemento reprodutor e estruturante das desigualdades em nossa sociedade. Por conseqüência, transforma a questão racial em mero problema relativo às minorias.
Mesmo o maior partido da esquerda brasileira, resultante das lutas sociais contra a ditadura militar e pela redemocratização do país não incorporou, em sua fundação, a dimensão racial. É certo que a geração de militantes afro-brasileiros forjada nos anos 1970 encontrou no Partido dos Trabalhadores um espaço privilegiado para implementar a luta anti-racial. Eles reconhecem que o PT não ficou insensível à questão racial. Porém, o PT, na analise desses militantes, reunidos no IV Encontro Nacional de Negros e Negras do PT:
“também, não desvendou o véu, o manto que encobre o racismo brasileiro e promove uma redução aparente dos seus efeitos. Apesar de afirmar o contrário, o PT repetia o equívoco histórico da esquerda de superestimar a importância da contradição de classes diante de outras contradições engendradas na sociedade e se deixava impregnar pela ideologia racista hegemônica na sociedade brasileira. Ao não compreender o papel e a importância do racismo na estruturação e reprodução de desigualdades em nossa sociedade o PT tornou-se, ainda que involuntariamente, cúmplice, parceiro da manutenção do "status quo racial".[29]
É interessante notar que a Secretaria Nacional de Combate ao Racismo do PT foi criada apenas em 1995, aprovada no seu X Encontro Nacional. Nesse evento, o PT homenageou os 300 anos de Zumbi dos Palmares. Note-se, ainda, que o PT não é o único partido a abrigar a militância afro-brasileira. Esses militantes já estavam presentes no velho Movimento Democrático Brasileiro (MDB), no Partido Democrático Trabalhista, em organizações políticas e na esquerda em geral. [30] Nos anos 1980, já com a reformulação partidária consolidada, encontraremos militantes da causa negra até mesmo em partidos considerados à direita no espectro político brasileiro.
A geração dos anos 1970 impulsionou a presença negra na política brasileira. O marco, nessa trajetória, foi a criação do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial, resultante da articulação das várias tendências que atuavam na luta anti-racial e pelas liberdades democráticas. Conforme o depoimento de Abdias do Nascimento (2000: 219-20), o movimento negro:
“enfrentava, no contexto da resistência ao regime de exceção, a oposição de setores de esquerda que negavam a legitimidade da nossa luta especifica. Os militantes do movimento negro precisavam se manter como verdadeiros heróis para levantar e sustentar essa bandeira. Em geral, essa fase da luta afro-brasileira se caracterizava por um certo atrelamento a expectativas da esquerda, e com isso uma impossibilidade de recorrer, se embasar, ou dar continuidade às histórias e conquistas materializadas nos períodos anteriores. Naquela circunstância, tutelado pelas esquerdas, o movimento negro se reorganizava como uma subutopia, já que a vitória da revolução mais ampla automaticamente resolveria os problemas de exclusão social.”
Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial nasceu a partir do Ato Público, realizado em São Paulo, em 07 de julho de 1978, em protesto contra a discriminação sofrida por quatro jovens negros  nas dependências do Clube Regatas Tietê e contra a tortura e morte de Robson Silveira Luz, numa delegacia de São Paulo.[31] Essa data ficaria marcada como o Dia Nacional de Luta Contra o Racismo. Passara-se, então, 41 anos desde o fechamento da Frente Negra Brasileira.
Um dos primeiros atos de caráter político-social naquele contexto, esse protesto reuniu centenas de pessoas. Aos que desconheciam a história da luta anti-racial poderia parecer que o movimento negro nascia ali. De fato, esse momento sintetizava um dos aspectos dos movimentos populares no Brasil: a luta do povo negro. Essa luta esteve sempre presente: seja numa tenda de umbanda, nas lágrimas do negro e da negra diante da discriminação sofrida ou na alegria de uma conquista, como o alargamento da sua influência política com a eleição de parlamentares comprometidos com a causa afro-brasileira, nas câmaras municipais, Assembléias Legislativas e o Congresso Nacional.
Na avaliação de Skidmore (1994: 165), o Movimento Negro Unificado expressa a “onda de consciência afro-brasileira mais forte que apareceu neste século”. Um dos fatores que ilustram essa força é o surgimento de ampla literatura afro-brasileira (muitas das quais mantidas pelos próprios autores). “Na luta anti-racista no Brasil, o movimento negro contemporâneo teve no MNU um importante instrumento de qualificação das nossas reivindicações junto ao Estado e à sociedade”, frisa Onawale.[32]
A participação dos negros na política institucional seguia, até então, a tendência já identificada por Thales de Azevedo (1955: 106-107) no seu estudo sobre a ascensão do negro na Bahia dos anos 1950. Ele observou que “numerosos escuros candidataram-se a cargos políticos, mas os registros dos mesmos no Tribunal Eleitoral não incluem indicações sobre o respectivo tipo físico. Mas entre os 103 atuais representantes do povo baiano nas assembléias legislativas federal, municipal e estadual, existem cerca de trinta por cento de morenos e pardos e alguns bastante escuros.” (sic.). Sem entrar no mérito dos números apresentados, observemos apenas que esses parlamentares não se agrupam segundo critérios de raça e que o prestígio de que desfrutam não dependem da cor, mas “dos seus traços de personalidade e dos partidos ou chefes políticos a que estão ligados”.[33]
Nos últimos anos, o crescimento da participação do negro na política institucional, através dos partidos políticos, indica mudanças nesse quadro. Na legislatura federal (mandato 1999-2003), constituiu-se, em caráter informal, a Frente Parlamentar Negra. Seu coordenador, o deputado Saulo Pedrosa (PSDB-BA), lamentou o fato de apenas 11 deputados se declararem afro-brasileiros e concordarem em participar. Observa-se ainda a resistência dos negros dos diversos partidos em agruparem-se segundo o critério racial.[34]
O fortalecimento da participação do negro na política institucional incidiu ainda sobre a estrutura do Estado, com a criação de conselhos e apoio a entidades responsáveis pelas demandas raciais. O pioneiro foi o governador Franco Montoro que, em 1984, criou o Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra. Esse exemplo foi seguido por outros governos estaduais e federal, os quais criaram órgãos próprios para tratar da temática racial.
A Constituição de 1988 consagrou os avanços obtidos pelos negros em suas lutas institucionais. A discriminação racial só foi reconhecida oficialmente em 1951, coma aprovação da Lei Afonso Arinos. Cem anos após a abolição da escravatura, o Estado brasileiro, pela segunda vez, admitiria a existência da discriminação contra os negros e tipificaria tal procedimento como crime inafiançável e imprescritível (artigo 5º, inciso XLII), sujeitando os responsáveis à pena de reclusão.[35] Coube ao deputado negro Carlos Alberto de Moura justificar essa exigência. Ressalte-se que a Comissão Provisória – a denominada Comissão Arinos – não tinha a presença de um único negro (passou a contar após as intermediações do ex-governador Franco Montoro).
Nesses anos, o movimento negro logrou ampliar sua influencia no Congresso Nacional através da eleição de deputados e senadores publicamente identificados com a causa negra: é o caso de Abdias do Nascimento (deputado e depois senador, assumindo a suplência após a morte de Darcy Ribeiro); deputada Benedita da Silva (ex-senadora e ex-governadora do Rio de Janeiro); o deputado federal Paulo Paim (atual senador pelo Rio Grande do Sul); Carlos Alberto Caó de Oliveira; Edmílson Valentim etc.
Os sindicatos também passaram por mudanças em relação ao tema racial, fruto da crescente influência dos negros. Se antes predominava um discurso sindical que solicitava “que esquecessem seus problemas do cotidiano, se convencessem de que são iguais a todos os outros trabalhadores, isto é, não-negros, e, finalmente, que abdicassem da sua condição racial em nome da unidade de classe” (Bento, 2000: 332), observa-se, principalmente a partir da década de 1990, uma maior sensibilidade em relação à especificidade dos negros.
Central Única dos Trabalhadores (CUT), em seu V Congresso Nacional, reconheceu oficialmente que a temática racial era fundamental para a organização dos trabalhadores. A Central Geral dos Trabalhadores (CGT), organizou, em 1990, no Rio de Janeiro, o Seminário Nacional de Sindicalistas Anti-Racistas e criou a Comissão Nacional Contra a Discriminação Racial. A Força Sindical (FS), reestruturou a Secretaria Nacional de Desenvolvimento da Igualdade Racial, cumprindo decisão do seu congresso. Em 20 de novembro de 1995, realizou-se uma das mais importantes manifestações do movimento negro: a Marcha contra o Racismo, pela Igualdade e pela Vida, reunindo em Brasília, milhares de militantes e sindicalistas de todo o país. Ainda nesse âmbito, devemos registrar a formação do Instituto Sindical Interamericano Pela Igualdade Social (INSPIR), com a participação da CUT, CGT, FS, AFLCIO e ORIT.
Também as mulheres afro-brasileiras intensificaram a sua participação, criando movimentos, publicações, entidades e Organizações Não-Governamentais específicas.[36] O Movimento das Mulheres Negras interveio nos fóruns nacionais e internacionais que, em 1995, prepararam aConferência Beijin 95, incluindo a temática racial, na perspectiva de gênero, na pauta das discussões feministas.
Com o fortalecimento da sociedade civil, verifica-se um boom no surgimento de ONGs, as quais preenchem o vazio deixado pelo Estado. Nesse período, formam-se várias ONGs preocupadas com a temática racial, também locus da militância afro-brasileira. Verifica-se ainda o crescimento da intervenção racialista na internet, espaço privilegiado para a divulgação e denúncia da luta anti-racial. Os negros também resistiram através da formação de associações comunitárias negras, do candomblé, das escolas de samba, da imprensa e publicações.
Atualmente, o movimento negro em geral intensifica a sua participação no âmbito institucional e busca intensificar a adoção de políticas afirmativas. [37] As ações afirmativas, públicas ou privadas, partem do princípio de que determinados grupos sociais são legatários de uma situação histórica-social que os tornam merecedores de um tratamento diferenciado, enquanto fator compensatório e de justiça social. O debate sobre as políticas afirmativas se dá em torno de três modalidades: 1) ações preventivas (medidas que objetivam evitar processos discriminatórios futuros); 2) política de cotas (reserva de vagas em universidades, instituições públicas etc.)[38]; e, 3) reparação (movimento que busca compensar discriminação sofrida no passado).[39]
Essa demanda causa polêmica na sociedade em geral e, inclusive, em setores do próprio movimento negro. Trata-se da tensão entre identidade racial e identidade de classe, entre o caráter universalista da luta de classe e as especificidades da problemática racial.[40] Tutelado por uns, manipulado e usado como massa de manobra por outros, o negro tem dificuldade em articular as formas coletivas de organização. Quando ousa fazê-lo é acusado de divisionismo, de praticar racismo às avessas e importar ideologias raciais. Pedem-lhe que acredite que vivemos numa democracia racial, quando até mesmo a democracia política se mostrou débil e esporádica em nossa história. Exigem-lhe que creia que a utopia socialista há de se concretizar e, então, os preconceitos e o racismo findarão. Resta-lhe aceitar a inevitabilidade da história.
Uns enfatizam o aspecto classista e outros o aspecto racial. Ora, parece claro que a temática racial se insere no âmbito da nossa formação histórica e diz respeito á estrutura econômica forjada nesse processo; mas, também parece evidente que as mudanças estruturais não significam, mecanicamente, o fim do racismo e dos preconceitos (as experiências históricas denominadas socialistas o confirmam). Como escreve Munanga (1996: 216):
“Sem dúvida, não podemos fazer uma separação mecânica entre um problema social que afeta todos os oprimidos da sociedade, brancos e não-brancos, e a questão racial. Brancos pobres e negros pobres são ambos vítimas da mesma causa. A libertação de ambos passaria pela mesma solução, mas não liberta o negro dos efeitos do racismo que, antes de ser uma questão econômica, é uma questão moral e ontológica.”
Se no Governo FHC, os negros obtiveram avanços – como reconhece setores do próprio movimento[41] – a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (e de vários parlamentares negros) favorece a ampliação da sua presença nos espaços institucionais. A palavra esperança parece sintetizar o momento político atual. Todavia, o negro aprendeu que para ele sempre é mais difícil e seus esforços, no âmbito institucional e extra-institucional, deverão ser ainda mais redobrados.

Considerações conclusivas

A pesquisa sobre a participação e representação do negro na política se ressente de fontes bibliográficas, entrevistas aos militantes negros e negras, levantamento criterioso e aprofundado sobre a presença do negro nas instituições. Esse é um trabalho que foge ao âmbito e às características de um artigo como esse, exigindo um trabalho mais aprofundado.[42]
Se considerarmos o âmbito institucional, a situação do negro e da negra mostra avanços em direção à conquista da cidadania. Hoje eles podem escolher seus governantes e também disputarem as eleições. Ampliaram-se os canais de participação e mesmo as possibilidades deles conquistarem um cargo no legislativo ou no executivo brasileiros. Eles estão presentes nas câmaras municipais, nas assembléias legislativas estaduais, no congresso e senado federal e se inserem no aparato do Estado em todos os níveis.
Ainda é pouco e constitui a exceção que confirma a regra. Quantos vereadores/as negros/as temos em nossas câmaras municipais? E nas prefeituras? Quantos são eleitos deputados para as Assembléias Legislativas e para o Congresso Nacional? E no senado? E se considerarmos as direções dos partidos políticos, mesmo os de esquerda? Será diferente nas direções sindicais? Em todos os casos veremos que a participação dos negros segue a mesma lógica observável nos demais setores da sociedade: no mercado de trabalho, no acesso à educação superior etc., as estatísticas demonstram que eles são minoritários e, mesmo quando ocupam cargos prestigiados, não estão livres do preconceito e do estigma da cor.
Contudo, a despeito das adversidades em que a luta anti-racista foi historicamente submetida, inclusive através do isolamento político, o negro e a negra resistem. Há uma história política não institucional que nem sempre é contada. A começar por Quilombo dos Palmares, símbolo da resistência de um povo que luta pela vida em liberdade. Esta experiência histórica, em geral desconhecida, mesmo no ensino formal, representou uma radical contestação à ordem, subvertendo a ideologia dominante quanto à boçalidade e indolência dos trabalhadores negros.
As diversas formas de resistência convergiram para que os negros se impusessem enquanto sujeitos políticos potenciais. Lutam pelo reconhecimento público da temática racial. Sabem que a denúncia do diferencial de raça enquanto elemento constitutivo da reprodução das desigualdades e do acesso aos chamados direitos de cidadania é de fundamental importância para o combate de todas as formas de racismo.
A política racial, através da ação direta e autônoma dos afro-brasileiros, tem sido o caminho mais fecundo para a defesa de uma população que, em sua maioria, é mantida à margem da política institucional. Eles aprenderam que só assim podem conquistar seu espaço, inclusive nas instituições do Estado (incluindo-se os partidos políticos). Em outras palavras, a sua participação política é necessariamente diferenciada.


Quando se é negro ou negra não basta, por exemplo, lutar pela cidadania participando de um partido político de esquerda. É preciso definir a qualidade desta cidadania e, simultaneamente, organizar-se enquanto setor diferenciado no interior deste partido. E isso ocorre porque a luta contra o racismo ainda não foi suficientemente abraçada por todos aqueles que, independente da cor, acreditam e lutam por uma sociedade plenamente democrática e justa.

sábado, 15 de novembro de 2014

Qual desenvolvimento teremos a partir de 2015?

        


Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável serão o novo marco global de desenvolvimento. O desafio é criar metas menos generalistas, como as dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio
por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais — publicado 09/10/2014 10:26
Kibae Park / UN Photo
Favela no Vietnã
Uma favela em Hanói, no Vietnã. O mundo discute como conduzir o desenvolvimento
Por Melissa Pomeroy e Bianca Suyama
A agenda de desenvolvimento Pós 2015, que culminará nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), aspira ser o novo marco global para o desenvolvimento. Uma vez acordada, será essa agenda que orientará as políticas e investimentos de países em desenvolvimento e, principalmente, daqueles classificados como países de baixa renda, que dependem sobremaneira da cooperação internacional e dos financiamentos geridos pelas Instituições Financeiras Internacionais (IFIs). Assim como aconteceu com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs), o consenso ao redor dos ODS significa um pacto político da comunidade internacional e deverá, teoricamente, orientar a agenda das agências de cooperação internacionais e organizações multilaterais, servindo como instrumento para canalizar recursos e definindo formatos e estratégias de atuação.
Se por um lado os ODMs foram importantes para elevar e legitimar internacionalmente a importância do combate à pobreza, em um período marcado pelo evidente fracasso do decálogo de recomendações e condicionalidades do Consenso de Washington, por outro são inúmeras as críticas relacionadas ao seu processo de construção e resultados. Em busca de um consenso entre os diversos Estados-membros da ONU, os ODMs se constituíram em oito metas generalistas, baseados em receituários e desvinculados de outros compromissos firmados em âmbitos multilaterais ou regionais. Ainda, as metas pecavam por sua falta de perspectiva de gênero e sua pouca reflexão sobre a desigualdade como causa da pobreza.
O processo de elaboração da agenda pós 2015 apresenta algumas respostas às críticas elaboradas aos ODMs, mas o acordo selado na 69ª Assembleia da ONU em relação aos ODS segue se configurando como uma agenda de desenvolvimento mínima onde desafios e contradições substantivos persistem: esteve formalmente aberta à participação da sociedade civil, mas esta se caracterizou por desigualdades de recursos, informações e âmbitos de decisão; apresenta avanços nas questões de gênero (transversalmente e, marcadamente, em seu objetivo 5), mas não registra mudanças significativas em relação aos direitos sexuais e reprodutivos e à população LGBT; reconhece a importância dos povos indígenas, pescadores e mulheres rurais para o combate à insegurança alimentar, mas não os reconhece como atores fundamentais para o equilíbrio climático; baseia-se no tripé desenvolvimento econômico-social-ambiental, proposto pela Rio +20 e incorpora a necessidade de diminuir a desigualdade entre e dentro dos países (objetivo 10), mas sobrevaloriza o papel do setor privado como alternativa de financiamento para o desenvolvimento e não explora as contradições que o atual estágio de desenvolvimento capitalista impõe, no que diz respeito às causas da desigualdade social e das crises climática, financeira, alimentar e energética, à captura do político pelo econômico e à financeirização de bens comuns e meio ambiente.
Claramente, a formulação dos ODS é, em si, um importante campo de disputa sobre modelos de desenvolvimento e alternativas no âmbito internacional. Neste sentido, reforçamos a importância da cooperação internacional não só como campo de ação, mas também como espaço dinâmico de discussão política do que é considerado legítimo e possível. Dentro deste debate, muitos esperam que o Brasil e outros provedores de Cooperação Sul-Sul (CSS) contribuam com novos caminhos a paradigmas. À continuação, apontam-se alguns dos campos em disputa nos debates do Pós-2015, nos quais espera-se um protagonismo da delegação brasileira em diálogo com a sociedade brasileira, nos processos de negociação dos ODS.
Pobreza versus desigualdadeO objetivo declarado do sistema de ajuda ao desenvolvimento, ou cooperação Norte-Sul, é a redução da pobreza. As organizações internacionais tiveram grande papel na construção do entendimento sobre a pobreza e as maneiras de enfrentá-la. O foco exclusivo na redução da pobreza resultou, muitas vezes, na tecnificação e despolitização do desenvolvimento, que desconsidera as dinâmicas de poder que produzem e reproduzem a pobreza, exclusão e desigualdade.
Apesar de isso não significar que esforços globais para a redução da pobreza são dispensáveis, ressalta a necessidade de reflexão sobre quais devem ser os principais objetivos da cooperação e os caminhos para atingi-los. Neste sentido, a inclusão de um objetivo 10 – ‘’reduzir desigualdade inter e entre países” - deve ser visto como uma vitória. O grande protagonista desse embate foi o G77, China e Brasil (é importante ressaltar que a posição governamental foi influenciada pelo diálogo com a sociedade civil).
Entretanto, os indicadores do objetivo são pouco específicos. Nas propostas enviadas pela sociedade civil brasileira ao Grupo de Trabalho Interministerial sobre a Agenda de Desenvolvimento Pós 2015 do governo brasileiro foi ressaltada a necessidade de incluir a linguagem de direitos, especificando os diversos grupos sociais vulneráveis. A existência de dados confiáveis e desagregados para esses diferentes grupos também é essencial para o monitoramento das metas.
Um passo para frente e dois para trás – a necessidade de coerência de políticasUm dos grandes desafios dos ODS é promover coerência de políticas que assegurem complementariedade de esforços em diferentes esferas – cooperação, comércio e financiamento. A coerência de políticas requer uma visão consistente do desenvolvimento perseguido. Diante dos diversos interesses em disputa, a construção dessa visão se configura como uma tarefa complexa (e, talvez, impossível).
Podemos observar essa complexidade na CSS brasileira, que se orienta a adensar suas relações com os países em desenvolvimento na busca de benefícios mútuos. Nessas relações, cooperação, incentivos comerciais, créditos concessionais e às exportações, muitas vezes, se misturam.
A área da agricultura, em particular, reflete as tensões entre diferentes interesses e visões de desenvolvimento. O Brasil compartilha experiências em agricultura familiar, ao mesmo tempo que promove o agribusiness via projetos de cooperação técnica e financeira. Para alguns, a complementariedade destas abordagens é o que justamente caracteriza a trajetória do desenvolvimento agrícola do País. No entanto, representantes da sociedade civil e da academia vêm ressaltando que estas lógicas, por serem contraditórias, estão exportando nossos conflitos internos.
Por outro lado, alguns projetos de cooperação se baseiam não apenas no compartilhamento de experiências mas, também, no diálogo direto com agendas multilaterais que respondem a uma noção de desenvolvimento na qual o comércio internacional joga um papel fundamental, como o Projeto Cotton 4, que simboliza batalhas travadas na OMC.
Responsabilidade e financiamento - Estado ou setor privado como indutor do desenvolvimento?
São cada vez mais influentes os discursos sobre parcerias público-privadas e modelos de governança multi-atores, que implicam em maior fragmentação da governança global, colocam em cheque a representatividade do sistema e não apresentam nenhum tipo de mecanismo de prestação de contas. Vale destacar também que, frente ao desafio de financiamento, organizações brasileiras, em consonância com movimentos internacionais, indicaram a criação de taxa sobre as transações financeiras internacionais como uma alternativa para levantar recursos para o desenvolvimento.
Ainda com relação ao financiamento, ao materializar as intenções de fortalecer uma ordem internacional multipolar, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) dos BRICS emerge como um peça importante. O NBD afirma perseguir o desenvolvimento sustentável, porém a definição sobre qual é o seu entendimento sobre esse conceito será decisiva e definirá o caráter dos projetos financiados. Frente à importância da diversificação de financiamento para apoiar projetos alternativos preocupa o fato de que os esforços brasileiros em relação a potenciais fontes para países do Sul - o ‘Fundo IBAS para o Alívio da Fome e da Pobreza’ e o Banco do Sul - continuem cambaleantes.
Com relação ao setor privado, é preocupante a tendência em redirecionar foco e recursos da cooperação para proporcionar ambientes favoráveis ao negócio e promover a participação do setor privado no desenvolvimento dos países.
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A negociação dos ODS faz transparecer as diversas posições que estão disputando os caminhos da agenda de desenvolvimento internacional. Apesar das questões relacionadas à legitimidade e representatividade do processo de construção dos ODS, o engajamento neste debate é importante pois ele pautará não só a agenda da cooperação internacional, mas também definirá as noções de desenvolvimento que serão difundidas pelas organizações multilaterais.
O papel do Brasil tem sido definitivo em algumas questões (como os objetivos 10 e 16) e espera-se que, na definição de indicadores e meios de implementação, o País mantenha seu protagonismo em diálogo com a sociedade brasileira. Esse diálogo é congruente com a visão que a política externa, assim como qualquer política pública, está sujeita à disputa de interesses presentes na sociedade e deve, portanto, estar sob escrutínio público e contar com espaços institucionalizados de participação, conforme a demanda por conformação de um Conselho Participativo de Política Externa, onde se incluiria também os debates sobre cooperação internacional.
*Melissa Pomeroy é coordenadora de programas do Centro de Estudos e Articulação da Cooperação Sul-Sul (Articulação SUL) e coordenadora do Observatório Brasil e o Sul. Bianca Suyama é coordenadora executiva do Articulação SUL e integrante do GRRI.Veja mais análises e notícias em http://obs.org.br/pos2015

sábado, 8 de novembro de 2014

UM BOM CONVITE




Prezadas e prezados
Certamente vocês já conhecem o Grupo Mulher Maravilha  e já ouviram falar que vamos executar um Curso de Formação em Direitos Humanos em Convenio com a Secretaria Nacional de DH da Presidência da República. Já se cadastraram mais ed 50 mulheres mas para chegarmos a 100, ainda precisamos de mais e o tempo agora corre contra nós. 
Gostaríamos muito que chegassem mulheres com perfil de liderança e ou com interesse na temática, pois como sabem, precisamos a todo momento nos reinventar para podermos enfrentar e combater tanta violação de Direitos Humanos
Então, pedimos que divulguem esse curso, ou os repassem endereços para que cheguemos a essas mulheres que certamente pela sua força, ajudarão a mudar esse mundo pra melhor.
Agradecemos pela contribuição nessa luta pela afirmação dos Direitos Humanos
Lourdes Luna


GMM


GRUPO MULHER MARAVILHA
Projeto
  “As Mulheres e os Direitos Humanos – Democratizando os Saberes”
Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República
FICHA DE  PRÉ-CADASTRO

Dados Pessoais:
Nome Completo.....................................................................................................
Como gosta de ser chamada.................................................................................
Data de Nascimento............................                   Naturalidade................................
Endereço Completo...............................................................................................
E-mail.....................................................................................................................
Telefone Residencial ............................. Celular/Operadora.................................
Escolaridade: ..................................................................................................
Raça/Cor: ( ) Indígena         ( ) Negra        ( ) Amarela    ( ) Branca
Orientação Sexual (responda se quiser) ( ) Heterossexual       ( ) Bissexual
( ) Homossexual       ( )Transexual
Pessoa com Deficiência: ( ) Sim            ( ) Não
Em caso afirmativo, especificar qual ....................................................................

Engajamento
Participa de alguma associação/entidade?  Em caso positivo, qual e vinculo ou função?..................................................................................................................
...................................................................................
Participa de algum Fórum/Rede/Movimento. Em caso positivo, qual ou quais?....................................................................................................................
Já fez Curso de PLPs? Em qual instituição e quando? Tem Certificado? ...............................................................................................................................
Já participou de Curso de Formação em Direitos Humanos? Quando e com qual organização?..................................................................................................

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Quão “cordial” é o povo brasileiro?



Leonardo Boff
Adital
Dizer que o brasileiro é um "homem cordial” vem do escritor Ribeiro Couto, expressão generalizada por Sérgio Buarque de Holanda em seu conhecido livro: "Raizes do Brasil” de 1936 que lhe dedica o inteiro capítulo Vº. Mas esclarece, contrariando Cassiano Ricardo que entendia a "cordialidade”como bondade e a polidez, que "nossa forma ordinária de convívio social é no fundo, justamente o contrário da polidez”(da 21ª edição de 1989 p. 107). Sergio Buarque assume a cordialidade no sentido estritamente etimológico: vem de coração. O brasileiro se orienta muito mais pelo coração do que pela razão. Do coração podem provir o amor e o ódio. Bem diz o autor:”a inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração”(p.107).
Escrevo tudo isso para entender os sentimentos "cordiais” que irromperam na campanha presidencial de 2014. Houve por uma parte declarações de entusiasmo e de amor até ao fanatismo para os dois candidatos e por outra, de ódios profundos, expressões chulas por parte de ambas as partes do eleitorado. Verificou-se o que Buarque de Holanda escreveu: a falta de polidez no nosso convívio social.
Talvez em nenhuma campanha anterior se expressaram os gestos "cordiais” dos brasileiros no sentido de amor e ódio contidos nesta palavra. Quem seguiu as redes sociais, se deu conta dos níveis baixíssimos de polidez, de desrespeito mútuo e até falta de sentido democrático como convivência com as diferenças. Essa falta de respeito repercutiu também nos debates entre os candidatos, transmitidos pela TV. Por exemplo, que um dos candidatos chame a Presidenta do país de "leviana e mentirosa” se inscreve dentro desta lógica "cordial”, embora revele grande falta de respeito diante da dignidade do mais alto cargo da nação.
Para entender melhor esta nossa "cordialidade” cabe referir duas heranças que oneram nossacidadania: a colonização e a escravidão. A colonização produziu em nós o sentimento de submissão, tendo que assumir as formas políticas, a lingua, a religião e os hábitos do colonizador português. Em consequência criou-se a Casa Grande e a Senzala. Como bem o mostrou Gilberto Freyre não se trata de instituições sociais exteriores. Elas foram internalizadas na forma de um dualismo perverso: de um lado os senhor que tudo possui e manda e do outro o servo que pouco tem e obedece ou também a hierarquização social que se revela pela divisão entre ricos e pobres. Essa estrutura subsiste na cabeça das pessoas e se tornou um código de interpretação da realidade e aparece claramente nas formas como as pessoas se tratam nas redes sociais.
Outra tradição muito perversa foi a escravidão. Cabe recordar que houve uma época, entre 1817-1818, em que mais da metade do Brasil era composta de escravos (50,6%). Hoje cerca de 60% possui algo em seu sangue de escravos afro-descendentes. O catecismo que os padres ensinavam aos escravos era "paciência, resignação e obediência”; aos escravocratas se ensinava "moderação e benevolência” coisa que, de fato, pouco se praticava.
A escravidão foi internalizada na forma de discriminação e preconceito contra o negro que devia sempre servir. Pagar o salário é entendido por muitos ainda como uma caridade e não um dever, porque os escravos antes faziam tudo de graça e, imaginam que devem continuar assim. Pois desta forma se tratam, em muitos casos, os empregados e empregadas domésticas ou os peões de fazendas. Ouvi de um amigo da Bahia que escutou uma senhora, moradora de um condomínio de alta classe dizer:”os pobres já recebem a bolsa-família e além disso creem que têm direitos”. Eis a mentalidade da Casa Grande.
As consequências destas duas tradições estão no inconsciente coletivo brasileiro em termos, não tanto de conflito de classe (que também existe) mas antes de conflitos de status social. Diz-se que o negro é preguiçoso quando sabemos que foi ele quem construiu quase tudo que temos em nossas cidades. O nordestino é ignorante, porque vive no semi-árido sob pesados constrangimentos ambientais, quando é um povo altamente criativo, desperto e trabalhador. Do nordeste nos vêm grandes escritores, poetas, atores e atrizes. No Brasil de hoje é a região que mais cresce economicamente na ordem de 2-3%, portanto, acima da média nacional. Mas os preconceitos os castigam à inferioridade.
Todas essas contradições de nossa "cordialidade” apareceram nos twitters, facebooks e outras redes sociais. Somos seres contraditórios em demasia.
Acrescento ainda um argumento de ordem antropológico-filosófica para compreender a irrupção dos amores e ódios nesta campanha eleitoral. Trata-se da ambiguidade fontal da condição humana. Cada um possui a sua dimensão de luz e de sombra, de sim-bólica (que une) e de dia-bólica (que divide). Os modernos falam que somos simultaneamente dementes e sapientes (Morin), quer dizer, pessoas de racionalidade e bondade e ao mesmo tempo de irraconalidade e maldade. A tradição cristã fala que somos simultaneamente santos e pecadores. Na feliz expressão de Santo Agostinho: cada um é Adão, cada um é Cristo, vale dizer, cada um é cheio de limitações e vícios e ao mesmo tempo é portador de virtudes e de uma dimensão divina. Esta situação não é um defeito mas uma característica da condition humaine. Cada um deve saber equilibrar estas duas forças e na melhor das hipóteses, dar primazia às dimensões de luz sobre as de sombras, as de Cristo sobre as do velho Adão.
Nestes meses de campanha eleitoral se mostrou quem somos por dentro, "cordiais” mas no duplo sentido: cheios de raiva e de indignação e ao mesmo tempo de exaltação positiva e de militância séria e auto-controlada.
Não devemos nem rir nem chorar, mas procurar entender. Mas não é suficiente entender; urge buscar formas civilizadas da "cordialidade” na qual predomine a vontade de cooperação em vista do bem comum, se respeite o legítimo espaço de uma oposição inteligente e se acolham as diferentes opções políticas. O Brasil precisa se unir para que todos juntos enfrentemos os graves problemas internos e externos (guerras de grande devastação e a grave crise no sistema-Terra e no sistema-vida), num projeto por todos assumido para que se crie o que se chamou de o Brasil como a "Terra da boa Esperança ”(Ignacy Sachs).
http://leonardoboff.wordpress.com/2014/10/31/quao-cordial-e-o-povo-brasileiro/

Leonardo Boff

O lugar comum do preconceito em tempos de eleições

Nesta semana vamos viver uma ressaca eleitoral. Os comentários e análises já estão aí para comprovar. E como tem sido desde o momento que o PT chegou à presidência da república pela primeira vez, um dos traços dessa ressaca é o preconceito de alguns. Pela lógica de quem navega soberano e tranquilo no mar do preconceito, votar no PT é sinônimo de ignorância, falta de informação, falta de ética e ter tido o azar de nascer no norte ou nordeste, terras que têm no DNA a herança maldita da pobreza e da burrice.
( ... )
Os motivos alegados e que dão fundamento ao preconceito são:
Gente sem informação e educação vota no PT. Esquecem os armados de preconceito que educação não existe só na formalidade das escolas e universidades. Educação e informação têm outras fontes. Muito nordestino bom de cordel faz de sua arte o suporte para tecer críticas, defender ideias e informar. Confundem também os preconceituosos, letramento com senso crítico. O que deveria muitas vezes andar de mãos dadas vive em geral no divórcio. As faculdades estão cheias de alunos que querem ser técnicos e que não suportam qualquer disciplina que leve à reflexão.
Vota no PT quem não acompanha a política. Outro equívoco. O pleito eleitoral com tanta gente discutindo e se posicionando sobre os motivos do voto não é critério para medir a participação política do povo. Podemos considerar a euforia dos últimos dias como um fenômeno à parte do natural desinteresse pela política. O comum é o grosso da população ter ojeriza a tudo que se refere à política e manter distância de movimentos sociais. Não querer pensar a política no Brasil é quase um problema cultural atávico. Os analistas políticos dos últimos dias, divulgadores de vídeos, panfletos, montagens, não são mais que especialistas de ocasião, assentados sobre construções da realidade elaboradas pelos grandes meios de comunicação.
O movimento das ruas não se refletiu nas urnas. Nesta afirmação acredita-se que os que foram para as ruas estavam lá de forma preferencial para tirar o PT do poder. Esquecem os formuladores da tese que o descontentamento era geral, que se recusava qualquer bandeira partidária, que o povo das ruas estava recusando a estrutura como um todo, e as reivindicações abarcavam problemas tão diversos quanto contraditórios, que a consciência daquelas concentrações heterogêneas é difícil de ser aferida. Os que estavam nas ruas podem ter votado tanto em Aécio como em Dilma pelos mesmos motivos, ou não votado em nenhum candidato.
O bolsa família é a principal fonte de votos do PT. Projeto repudiado por quem votou em Aécio e chamado de bolsa miséria é tido como responsável pela reeleição de Dilma. A equação simplista é que o medo de perder o benefício puxou votos para a candidata. Se fosse verdade, São Paulo teria votado mais em Dilma. Depois da Bahia, São Paulo é o Estado que mais recebe benefícios do programa, seguido por Pernambuco, Ceará, Minas Gerais e Maranhão (Ver quadro).


Outro fator importante para a análise é a distância porcentual entre Dilma e Aécio nos estados onde o tucano foi vencedor. Com a exceção de São Paulo, os índices não são acachapantes, o que permitiu a candidata ser eleita.
O povo preguiçoso prefere viver de esmolas. Não, o povo não prefere viver na miséria e de esmolas. A maior parte das pessoas não está disposta a viver só para comer do que vem de um programa de governo. As pessoas têm aspirações maiores do que simplesmente sobreviver. Um pouco mais de generosidade na forma de ler a realidade faria notar que em muitos casos a situação da fome no Brasil era grave e sem remediações imediatas. A fome não espera soluções de longo prazo. Dar pão aos famintos é parte de medidas que visam corrigir inicialmente o irremediável. A outra parte da solução vem com cotas, investimento na educação (acesso ao ensino ampliado nos últimos anos, fato inconteste) redução do desemprego (4,9%, a menor taxa desde setembro de 2002, de acordo com o IBGE). A correção de um país voltado por séculos para as classes abastadas não vem de uma hora para outra. Leva tempo e pede atenção para quem antes não foi atendido em suas necessidades. Para o país ser de todos são necessárias medidas que dão prioridade aos mais frágeis. Não se pode olvidar que a fome já foi uma das maiores chagas da nação, e ela se concentrava sobremaneira no nordeste.
A vitória de Dilma não é fruto de motivos fantasiosos e que levam a explicações que depreciam o outro. O cálculo para se votar levam em consideração os anseios, a realidade, os riscos e um complexo maior de sentimentos. Achar que só uma parte da população é capaz de fazer isso e a outra não, é puro autoengano. Acreditar também que o desejo de mudança estivesse só de um lado e que o outro votou pela permanência é delírio. Os de baixo viram algo mais que a bolsa família. Viram oportunidades serem criadas, salários em ascensão, crédito acessível e educação franqueada. Quem votou em Dilma votou para mudar mais e encontrou razões para creditar isso a ela e não a seu opositor.

Magno Marciete do Nascimento Oliveira

Padre, mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, doutorando pela mesma instituição e Professor na PUC- Minas

quinta-feira, 30 de outubro de 2014



Discurso do Papa Francisco participantes no Encontro Mundial de Movimentos Populares

(Old Sínodo Hall, 28 de outubro de 2014) 

Olá de novo, eu estou feliz por estar no meio de vós, bem, eu lhe contar um segredo, é a primeira vez que aqui embaixo, eu nunca tinha sido. Como eu disse, eu tenho grande alegria e dar-lhes uma recepção calorosa.

Obrigado por aceitar o convite para discutir muitos graves problemas sociais que o mundo enfrenta hoje, você que sofrem em primeira mão a desigualdade ea exclusão. Cardeal Turkson Obrigado pelo seu bem-vinda. Obrigado, Eminência por seu trabalho e as suas palavras.

Este encontro de Movimentos Populares é um sinal, é um grande sinal: eles chegaram a colocar na presença de Deus, a Igreja, vilas, uma realidade muitas vezes silenciada. Os pobres não apenas sofrem a injustiça, mas também lutar contra ela!

Não contente com promessas ilusórias, desculpas ou álibis. Nem eles estão esperando de braços cruzados a ajuda de ONGs, planos de previdência ou soluções que nunca chegam ou se eles vêm, eles vêm de modo que eles vão em uma direção ou insensível ou domesticado. Este é ambiente perigoso. Você sente que os pobres não esperam e querem ser atores, organizar, estudar, trabalhar, e exigente, especialmente prática que especial entre o sofrimento, os pobres, a solidariedade ea nossa civilização parece ter esquecido, ou, pelo menos, está ansioso para esquecer.

Solidariedade é uma palavra nem sempre como ele, eu diria que, por vezes, têm se tornado uma palavra ruim, você não pode dizer; mas é uma palavra muito mais do que alguns atos esporádicos de generosidade. Você pensar e agir em termos de comunidade, a prioridade de vida para todos na apropriação de bens por alguns. Combater também as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de mão de obra, terra e moradia, a negação dos direitos sociais e trabalhistas. Você enfrentar os efeitos destrutivos do Império do Dinheiro: deslocamento forçado, migração dolorosa, tráfico de seres humanos, drogas, guerra, violência e todas as realidades que muitos de vocês estão sofrendo e todos nós somos chamados a ser transformada. A solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo, é uma maneira de fazer história e é isso que os movimentos populares.

Este jogo não responde a nossa ideologia. Você não trabalha com idéias, trabalhar com a realidade como eu mencionei e muitos outros me disseram ... eles têm os pés na lama e as mãos na carne. Eles cheiram distrito, aldeia, lutar! Queremos que a sua voz, em geral, pouco se ouviu falar é ouvido. Talvez porque chato, talvez porque o seu clamor desconfortável, talvez porque eles têm medo de mudar você procura, mas sem ele, sem realmente ir para as periferias, boas propostas e projetos que muitas vezes ouvimos em conferências internacionais permanecer no campo das idéias, é o meu projeto.

Você não pode enfrentar o escândalo da pobreza através da promoção de estratégias de contenção e tranquilidade que só os pobres se tornam criaturas domesticadas e inofensivos. Como é triste quando atrás de supostas obras altruístas, que reduz o outro a passividade, nega ou pior, negócios e ambições pessoais esconder Jesus diria hipócrita. Como bonito é, em vez de se mover quando vemos os povos, especialmente os seus membros e os jovens mais pobres. Então, sim, você sentir o vento da promessa que alimenta a ilusão de um mundo melhor. Aquele vento torna-se um vendaval de esperança. Esse é o meu desejo.

Este nosso encontro serve um desejo muito específico, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para seus filhos; um desejo que deve estar disponível para todos, mas infelizmente hoje vemos mais e mais longe do que a maioria: terra, moradia e trabalho. É estranho, mas se eu falar sobre isso para alguns é que o Papa é um comunista.

Não significa que o amor pelos pobres é o coração do Evangelho. Terra, moradia e trabalho, por isso que você está lutando, são direitos sagrados. Alegando isso não é incomum, é a doutrina social da Igreja. Vou morar um pouco sobre cada um deles, porque você escolheu como o slogan para esta reunião.

Terra. No início da criação, Deus criou o homem, guardião de seu trabalho, alegando que cultivar e proteger. Vejo que aqui há dezenas de agricultores, e felicito-los a manter a terra, para cultivá-lo e fazê-lo em comunidade. Eu me preocupo com a erradicação de muitos irmãos que são camponeses desenraizados, não pela guerra ou por desastres naturais. A grilagem, o desmatamento, a apropriação da água, agrotóxicos inadequados são alguns dos males que o homem arrancadas de sua terra natal. Esta separação dolorosa, que não é apenas física, mas espiritual e existencial, porque não há uma conexão com a terra que está colocando a comunidade rural e seu estilo de vida único notoriamente desagradável e até ameaçadas de extinção.

A outra dimensão do processo global e fome. Quando a especulação financeira afeta o preço dos alimentos tratá-los como mercadorias, milhões de pessoas sofrem e morrem de fome. Além disso toneladas de alimento são descartados. Este é um verdadeiro escândalo. A fome é criminosa, a comida é um direito inalienável. Eu sei que alguns de vocês estão chamando para a reforma agrária para resolver qualquer um desses problemas, e deixe-me dizer-lhe que, em certos países, e aqui cito o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, a reforma agrária "é também uma necessidade política, uma obrigação moralidade "(CSDC, 300).

Eu só não digo, está no Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Por favor, continuem com a luta pela dignidade da família rural, para a água, para a vida e para que todos possam beneficiar dos frutos da terra.

Em segundo lugar, techo. Eu disse e repito: uma casa para cada família. Nunca se esqueça de que Jesus nasceu em um estábulo porque não havia lugar de hospedagem, que sua família tiveram que deixar suas casas e fugir para o Egito, perseguido por Herodes. Hoje há tantas famílias sem-teto, ou porque nunca tiveram ou porque perderam por várias razões. Família e vida andam de mãos dadas. Mas também, um telhado, por estar em casa, tem uma dimensão comunitária eo bairro ... e é no bairro onde você começa a construir a grande família da humanidade, a partir do instante, da coexistência com os vizinhos. Hoje, vivemos em cidades enormes que é moderno, orgulhoso e até vaidoso. Cidades que oferecem inúmeros prazeres e bem-estar para alguns felizes ... mas o teto é negado a milhares de nossos vizinhos e irmãos, inclusive crianças, e são chamados de, elegantemente, "moradores de rua". É engraçado como no mundo de injustiça, eufemismos abundam. Não diga as palavras com a força e, na verdade, olhando para o eufemismo. Uma pessoa, uma pessoa segregada, uma pessoa à parte, uma pessoa que está sofrendo de pobreza, a fome, a pessoa na rua: palavra chique né? Você sempre olha lá fora, eu estou errado em alguns, mas no geral, atrás de um eufemismo é um crime.

Vivemos em cidades construir torres, shopping centers, imobiliário ... mas deixam uma parte de si nas margens, periferias. Como dói ouvir que os assentamentos pobres são marginalizados ou pior, eles estão a ser erradicada! São imagens cruéis de despejos forçados, os tratores de demolição, caixas de imagens tão semelhantes aos da guerra. E esta é hoje.

Você sabe que nos municípios onde muitos de vocês ao vivo permanecem valores esquecidos e centros fortificados. Os assentamentos são abençoados com uma rica cultura popular: o espaço público não é meramente um trânsito, mas uma extensão da casa, um lugar para construir laços com vizinhos si. Quão formosos são as cidades que ultrapassam a desconfiança doentia e integrar diferentes e fazer essa integração de um novo fator de desenvolvimento. Como bonitos são as cidades que, mesmo em seu projeto arquitetônico, são espaços que conectam cheios, interagir, favorecendo o reconhecimento dos outros. Portanto, nem a eliminação ou marginalização: Você tem que manter em linha com a integração urbana. Esta palavra deve se mover completamente erradicar a palavra, é claro, mas também os projetos que pretendem encobrir as favelas e periferias aprolijar maquiagem social, em vez de curar feridas, promovendo uma integração autêntica e respeitosa. É uma espécie de direito maquiagem arquitetônico? E é por esse lado. Vamos trabalhar para cada habitação tangan família e que todos os bairros têm infra-estrutura adequada (esgoto, eletricidade, gás, asfalto e manter escolas, hospitais ou salas de primeiros socorros, clube de esportes e todas as coisas que constroem vínculos e ligando, o acesso à saúde-que-ya disse que a educação ea posse de segurança.

Em terceiro lugar, do Trabalho. Não há maior pobreza material - pediu-me enfatizar isso, não há pobreza pior material, que não permite o seu pão e privados da dignidade do trabalho. Juventude desemprego, a informalidade ea falta de direitos trabalhistas não são inevitáveis, elas são o resultado de escolhas sociais antes, um sistema econômico que coloca o lucro acima do homem, se o benefício é barato, sobre a humanidade ou sobre o homem são efeitos de descartar uma cultura que considera o próprio ser humano como uma mercadoria, que pode ser usado e depois jogado fora.

Hoje, o fenômeno da exploração e opressão que acrescenta uma nova dimensão, uma nuance gráfico e difícil de injustiça social; que não podem ser integrados, os resíduos são excluídos "sobra". Esta é a cultura do descarte e gostaria de ampliar esse algo que eu escrevi, mas ocorre-me a lembrar agora. Isso acontece quando o centro de um sistema econômico é o deus do dinheiro e não o homem, a pessoa humana. Sim, o centro de qualquer sistema social ou econômico deve ser a pessoa, imagem de Deus, criado para ser o denominador do universo. Quando a pessoa se desloca e é o deus do dinheiro indo estes valores trastocación.

E, para mostrar, eu me lembro de um ensino por volta de 1200. Um rabino judeu explicou aos seus paroquianos a história da Torre de Babel e, em seguida, contou como a construção da torre de Babel, teve que fazer muito esforço que você teve para fazer tijolos para fazer tijolos tinha que fazer a lama e trazer palha e amassar o barro com palha, corte em quadrados, em seguida, torná-lo seco, em seguida, cozinhá-lo, e quando eles foram preparados e frio, enviá-los, a fim de construir a torre.

Se um tijolo caindo, o tijolo era muito caro, com todo esse trabalho, se um tijolo caiu era quase uma tragédia nacional. Quando ele caiu punidos ou suspensos ou que não o conhecia, e se um trabalhador caiu nada aconteceu. Isto é, quando a pessoa está a serviço de Deus e esse dinheiro tinha um rabino judeu em 1200 explicando essas coisas horríveis.

E a respeito da disposição tem que ser um pouco atento ao que está acontecendo em nossa sociedade. Estou repetindo coisas que eu disse e estão em Evangelii Gaudium. Hoje, as crianças são descartados porque a taxa de natalidade em muitos países do mundo diminuiu ou as crianças são descartados porque eles não têm poder ou eles são mortos antes de nascer, descartando as crianças.

Os idosos são descartados, porque, bem, não adianta, produzir, ou produzir crianças ou idosos, sistemas em seguida, mais ou menos sofisticados lentamente vai abandoná-los, e agora, como é necessário nesta crise recuperar algum equilíbrio, estamos testemunhando um terceiro empate doloroso, descartando juventude. Milhões de jovens, não me refiro a figura, porque eles não sabem exatamente e eu li, parece um pouco exagerado, mas milhões de trabalho com jovens descartado, desempregados.

Nos países europeus, e se essas estatísticas são muito claras, aqui na Itália, passou um pouco de 40% de jovens desempregados; você sabe o que significa 40% da juventude, uma geração, um anel de geração para o equilíbrio. Em outro país europeu que vai de 50% no mesmo país e 50% no Sul, 60%, são, figuras de ossos de descarte claras. Dropping crianças, descarte de idade, eles não produzem, e nós temos que sacrificar uma geração de jovens, descartando os jovens a manter e reequilibrar um sistema em que o centro é o deus do dinheiro, e não o indivíduo.

Apesar disso, descartar essa cultura, essa cultura do excesso, por isso muitos de vocês, excluindo, por este sistema os trabalhadores excedentes estavam inventando o seu próprio trabalho com qualquer coisa que parecia dar mais de si mesmo ... mas você, com seu artesanato, Deus lhes deu ... a busca, a sua solidariedade para com o seu trabalho comunitário, com sua economia popular, têm alcançado e estamos conseguindo isso .... E deixe-me dizer-lhe, que, além de trabalhar É poesia. Obrigado.

Naturalmente, todos os trabalhadores, seja ou não no sistema formal de trabalho assalariado, o direito a um salário digno, segurança social e uma cobertura de aposentadoria. Aqui são lixo, catadores de lixo, vendedores ambulantes, alfaiates, artesãos, pescadores, agricultores, construtores, mineiros, trabalhadores recuperado empresas, todos os tipos de cooperativas e comércios populares trabalhadores estão excluídos dos direitos trabalhistas, que são negados a possibilidade de sindicatos, que não têm renda suficiente e estável. Hoje eu quero juntar a minha voz ao deles e apoiá-los em sua luta.

Neste encontro, eles também falaram sobre Paz e Ecologia. Ergue-se a razão: você não pode ter terra, não pode haver limite, não pode haver paz se não trabalhar e se destruirmos o planeta. Eles são tão importantes que os povos e suas organizações de base não pode parar de debater questões. Eles não podem ser deixados sozinhos nas mãos de líderes políticos. Todos os povos da terra, todos os homens e mulheres de boa vontade, temos de falar em defesa desses dois presentes preciosos: a paz ea natureza. A mãe telefonou para a irmã terra como São Francisco de Assis.

Recentemente eu disse, e repito, que estamos vivendo a terceira guerra mundial, mas em parcelas. Existem sistemas econômicos devem fazer para sobreviver à guerra. Então faça e armas e com isso saldos de poupança que matam o homem aos pés do ídolo do dinheiro que vendem, obviamente, permanecem sólidos. E não pense sobre a fome em campos de refugiados crianças, não pensar em deslocamento forçado, não acha das casas destruídas, não acho que, é claro, em tantas vidas interrompida. Que sofrimento e destruição, quanta dor. Hoje, queridos irmãos e irmãs, se eleva em todas as partes da terra, em cada cidade, em cada coração e em movimentos populares, o grito para a paz: Não mais guerra!

Um sistema econômico centrado em Deus também precisa de dinheiro saqueando natureza, pilhagem da natureza para sustentar o ritmo frenético de consumo é inerente. As alterações climáticas, perda de biodiversidade, o desmatamento já estão mostrando os efeitos devastadores dos grandes cataclismos que vemos, e quanto mais você sofre, os pobres são aqueles que vivem perto da costa ou em barracos que são tão economicamente vulneráveis ​​para lidar com um desastre natural perder tudo. Irmãos e Irmãs, a criação não é uma propriedade, o que temos ao nosso gosto; longe disso, é uma propriedade apenas de alguns poucos: a criação é um dom é um dom, um dom maravilhoso que Deus deu para nós para cuidar dela e podemos usá-lo para o benefício de todos, sempre com respeito e gratidão . Você pode saber que eu estou preparando uma encíclica sobre Ecologia: a certeza de que suas preocupações vão estar presentes nele. Agradeço-lhe, Senhor, para agradecer-lhes, a carta me fez chegar a integrantes da Via Campesina, Federação Cartoneros e muitos outros irmãos sobre o assunto.

Falamos sobre a terra, trabalho, sobrecarga ... falar sobre como trabalhar pela paz e cuidar da natureza ... Mas por que, em vez estamos habituados a ver como o trabalho decente é destruído, muitas famílias são despejadas , os camponeses são expulsos, fazer a guerra ea natureza abusado? Porque este sistema trouxe para o homem, a pessoa humana, o coração eo substituiu por outra coisa. Para um culto idólatra do dinheiro é pago. ! Porque foi globalizado indiferença, se globalizou indiferença: a mí¿qué me importa o que acontece com os outros, enquanto eu defendo o meu? Porque o mundo se esqueceu de Deus, que é Pai; tornou-se um órfão porque ele deixou Deus de fora.

Alguns de vocês expressa esse sistema não se sustenta mais. Temos que mudar, temos de voltar a tirar a dignidade humana no centro da coluna e as estruturas sociais alternativas que precisam ser construídas. Devemos fazê-lo com coragem, mas também com inteligência. Com tenacidade, mas sem fanatismo. Com paixão, mas sem violência. E juntos, enfrentando conflitos sem se envolver neles, buscando sempre resolver as tensões para alcançar um plano superior de unidade, paz e justiça. Os cristãos têm um muito bonito, um guia para a ação, um programa pode-se dizer, revolucionário. Nós aconselhamos que você lê-lo, ler as bem-aventuranças estão no capítulo 5 de Mateus e Lucas 6, (cfr. Mt 5, 3 e Lc 6, 20) e ler a passagem em Mateus 25. O disse o jovem, no Rio de Janeiro, com essas duas coisas é o programa de acção.

Eu sei que há entre vocês, pessoas de diferentes religiões, artesanato, idéias, culturas, países, continentes. Hoje eles estão praticando a cultura do jogo aqui, tão diferente da xenofobia, discriminação e intolerância que vemos com tanta freqüência. Entre os excluídos deste encontro de culturas em que o conjunto não se sobrepõe ao particular é dada, o conjunto não substitui particularidade. Então eu gosto da imagem do poliedro, uma figura geométrica com muitos rostos diferentes. O poliedro reflete a confluência de todos os preconceitos que retêm originalidade. Nada se dissolve, nada se perde, nada é dominado, tudo se integra, tudo está integrado. Hoje eles também estão procurando que a síntese entre o local eo global. Seja que trabalham dia após dia no próximo, em particular, no seu território, seu bairro, seu local de trabalho: o também convidamos você a continuar buscando essa perspectiva mais ampla, os nossos sonhos voam alto e abrangendo todo.

Assim, parece-nos importante que a proposta que compartilhei alguns desses movimentos, essas experiências de crescimento de solidariedade a partir de baixo, a partir do subsolo do planeta, venha junto, mais coordenada, eles são encontrados, como você tem feito nestes dias. Atenção nunca é bom movimento constrição em estruturas rígidas, então eu disse para atender, muito menos é bom para tentar absorver direta ou dominar; Livre circulação tem sua própria dinâmica, mas devemos tentar caminhar juntos. Estamos neste quarto, que é o salão do antigo Sínodo, há agora um novo, e sínodo significa apenas "caminhar juntos": é um símbolo do processo que você iniciou e estão a decorrer.

Os movimentos populares expressaram a necessidade urgente de revitalizar a nossa democracia, tantas vezes invadida por muitos fatores. É impossível imaginar uma sociedade futura sem a participação ativa da maioria e que o papel além de procedimentos lógicos da democracia formal. A perspectiva de um mundo de paz duradoura e da justiça demanda que nós superamos abrangendo o bem-estar nos obriga a criar novas formas de participação, incluindo anime movimentos populares e as estruturas de governo local, nacional e internacional que torrente de energia moral que surge a partir a incorporação dos excluídos na construção de destino comum. E isso de forma construtiva, sem ressentimento, com amor.

Coração Eu os acompanhou nesse caminho. Vamos juntos com o coração: Não desabrigados família, não há camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, sem dignidade, qualquer pessoa que dá o trabalho.

Queridos irmãos e irmãs continuam a sua luta, tudo o que fazemos bem. É uma bênção para a humanidade. Deixo lembrança, presente e minha bênção, rosários artesãos que manufaturados, catadores e trabalhadores da economia nacional na América Latina.

E este apoio eu orar por você, orar com você e peço a Deus, nosso Pai, para acompanhar e abençoar você enchê-los com o seu amor e acompanhá-los na estrada generosamente dando-lhes a força que nos faz continuar: que a força é esperança, a esperança que não desilude, obrigado.

Francisco